O ÓPIO: DA RELIGIÃO AO CONSUMO

"O papel que as religiões têm jogado como estímulo ou freio aos valores desta ou daquela civilização é, hoje, dado como certo. Todas travaram um combate singular, porque alicerçado na fé, para plantar nos espíritos. com as sementes da crença, um código de convivência social e, ao mesmo tempo, uma moral particular, a cuja obediência todos deviam se inclinar, em nome dos homens e de Deus.

Tratava-se de uma conquista dos espíritos por meios espirituais, daí uma certa possibilidade de escolha ou, ao menos, de gradações no fervor com que as pessoas se associavam, e associam, às diversas religiões ou seitas.

Já o consumo instala sua fé por meio de objetos, aqueles que em nosso cotidiano nos cercam na rua, no lugar de trabalho, no lar e na escola, quer pela presença imediata, quer pela promessa ou esperança de obtê-los. Numa sociedade tornada competitiva pelos valores que erigiu como dogmas, o consumo é verdadeiro ópio, cujos templos modernos são os shopping-centers e os supermercados, aliás, construidos a feição das catedrais. O poder do consumo é contagiante, e sua capacidade de alienação é tão forte que a sua exclusão atribui às pessoas a condição de alienados. Daí a sua força e o seu papel perversamente motor da sociedade atual.

Não se trata , porém, de uma simples sociedade de consumo, mas de uma sociedade de consumo que produz disperdícios.

A glorificação do consumo se acompanha da diminuição gradativa de outras sensibilidades, como a noção de individualidade que, aliás, constitui um dos alicerces da cidadania. Enquanto constrói e alimenta um individualismo feroz e sem fronteiras, o consumo contribui ao aniquilamento da personalidade, sem a qual o homem não se reconhece como distinto, a partir da igualdade entre todos."

* Texto retirado do Livro "O espaço do cidadão" - Milton Santos.

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Por certo, Santos, ao produzir esta belíssima obra, como todos os seus escritos que eu conheço (sou um leitor assíduo), não conheceu a religião de hoje, um outro ópio, ou aliás, o mesmo, porém verdadeiros shopping-centers da fé, alicerçados na barganha principalmente na "teologia da prosperidade", uma junção perversa de religião e consumo que vem alienar nos termos que o autor colocam no fragmento de texto e também distanciar as pessoas cada vez mais de uma fé genuina no evangelho (Cristo) que não tem nada a ver com esse sistema perverso.

Nele, que é o fundamento comum da fé, e que nos une em meio a cada personalidade,

Luciano Costa