Descanso e descaso - Um câncer social que tem cura!

A alguns meses fui a um enterro de uma ente de um amigo.

Era uma pessoa relativamente jovem e que havia falecido devido a um câncer.

Como ela ja havia sofrido por muitos meses no hospital, todos se sentiam aliviados com aquela perda e sentiam que o que acontecera era o melhor no momento.

Ela descansou! Estava sofrendo muito! Era o que todos pensavam e diziam.

A morte é um prato inesperado, a menos que se não tenha motivos para viver.

Normalmente nos solidarizamos ao acompanharmos casos como este.

A poucos dias ao apresentar um DVD em sala de aula, onde gosto de apresentá-lo ao abordar o assunto "violência urbana" em sala de aula, pude rever aquela cena que traz lágrimas aos olhos:

Uma criança nascida em uma favela, sem pai ou mãe, sem oportunidades, sem moradia, sem-sem, que se droga e rouba dia e noite dizendo estas palavras:

- Eu não sinto nada, to sempre "se drogando".
- Tenho que roubar para ter as coisas, as meninas só olham pra quem tem uma arma, e outras coisas.
- SE EU MORRER? SE EU MORRER EU DESCANSO, VOU DESCANSAR! ESSA VIDA É SÓ "ESCULACHO"! SE EU MORRER AMANHÃ NASCE OUTRO "IGUAL EU" IGUAL OU PIOR!

A última resposta dada ao entrevistador ao ser questionado se tinha medo de morrer em confronto armado com a polícia ao ser pêgo em delito.

Infelizmente, poucos se solidarizam e movem esforços para curar esse câncer maligno, porém curável, chamado de exclusão social.

Enquanto muitos morrem antes de completar dezoito anos na guerrilha urbana das favelas, nossas autoridades ainda se preocupam em criar leis idiotas e não exequíveis como a não permissão de capacete por motociclistas em ambientes públicos, essa tão comentada sobre as bebidas, onde policiais na porta de chopadas e festas de bebida liberada sequer abordam aqueles que saem "chapados" e avordam aqueles que bebem moderadamente e dentro de seus limites, colocação de máquinas de preservativos em escolas e coisas desse tipo.

Sobre o último exemplo citado, e em relação a segurança pública, é fácil identificar a política neomalthusiana adotada pelos governos nos dias atuais, onde tenta-se tapar os buracos de uma peneira a muito escancarada.

De que adianta mandar vários soldados despreparados realizarem ações violentas nas favelas?

De que adianta distribuir preservativos?

De que adiantam estas coisas se não houver uma profunda reforma social, uma melhor distribuição de renda e investimentos estatais em saúde, segurança, educação, etc..

O que vemos hoje é uma política de "mal estar social", impulsionada principalmente pelos ajustes neoliberais realizados pelos países periféricos, sendo o Estado um agente que não atende aos reclames da população em geral, mas que busca criar condições principalmente para as grandes corporações que não estão interessadas nem um pouco em tratar da questão social, a não ser que tenham vantagens.

Outro dia fiquei surpreso, ao ver um programa de TV, que apontva uma pesquisa, onde 82% da população entrevistada concordava com a tal distribuição de preservativos em escolas.

Mas ao pensar bem, não é de assustar, já que a superficialidade das ações, e o auto-engano ainda é o combustível da sociedade, ainda preferem remediar do que prevenir.

Com certeza muitos estão lucrando com tudo isso... com certeza esses muitos não são quem realmente necessitam, os alvos do descaso e da superficialidade.

Enquanto as autoridades descansam com suas fortunas e enriquecimento ilícito,muitos desejam descansar, graças ao descaso, e a esse sistema econômico maligno.

Ao chegar as eleições, pensem nestas coisas. Votem até em branco ou nulo, mas não contribuam para isso, eu pretendo fazer minha parte.

Luciano Costa