O lugar dos pobres na cidade

A formação social brasileira tem sua especificidade. Da colônia ao país independente, temos um longo caminho histórico a percorrer, que foi construído inicialmente pela invasão dos povos portugueses e pela expropriação e violência sofrida pelos índios.

Tudo em prol dos interesses pelo domínio de novos territórios e exploração de suas riquezas. Já que o velho mundo não cabia mais nele mesmo, foi preciso descobrir novas terras para a produção de riquezas e conquistas que deram poder a esses países. Esta medida custou caro a diversas vidas, como ao povo indígena que foi assassinado e retirado de sua terra para dar lugar à cobiça e ao imperialismo. Seguido das mãos escravas submetidas à violência, aos trabalhos mais rudes e pesados.

A cidade de Juiz de Fora, antes denominada Vila Santo Antônio do Paraibuna, no Século XIX, surgiu como conseqüência do caminho percorrido para levar o ouro à cidade do Rio de Janeiro, destinado às terras portuguesas.

O período minerador exigiu maior utilização de mão-de-obra escrava que era submetida à extensa jornada de trabalho. Em 1872, havia 18.775 escravos para 11.604 livres. A população escrava dominava a sociedade na ocasião, haja vista que era interessante para os proprietários das fazendas mantê-la devido ao baixo custo da mão-de-obra, e, enquanto os homens livres também sofriam pela sua exclusão do processo produtivo, muitos viviam do artesanato ou de pequenas plantações. Foram estigmatizados pela elite como vagabundos e imprestáveis, porque não se submetiam aos trabalhos por se sentirem explorados.Segundo Kowarick (1994), o que deve interessar no sistema colonial são suas características básicas e “herança”, ou seja, as raízes profundas no percurso do século XIX cafeeiro e que trouxeram conseqüências no processo de formação do capitalismo e das classes sociais no Brasil.

Com o declínio do sistema escravista, a mão-de-obra escrava tornou-se liberada e somou-se aos trabalhadores livres. A cidade foi sendo ocupada e povoada na parte baixa pelas classes ricas e a parte alta e acidentada pelos pobres. Sem condições econômicas, o pobre foi morar nos piores lugares e de forma inadequada.

Dados como do Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA) mostram-nos que 34% da população brasileira vive em moradias inadequadas em todo país. Em Juiz de Fora, segundo o Atlas de Desenvolvimento Humano, existem 144 áreas em condições subumanas. Revelando as marcas desse processo produtivo que se enraizaram ficando evidentes, aqueles que hoje moram precariamente ocupando as favelas e as áreas vulneráveis (sujeitas a inundações e escorregamento de terra) nada mais são que os descendentes dos escravos, imigrantes e dos trabalhadores livres, que ao longo da história procuraram superar a opressão, violência e abandono impostos pelo poder econômico e político.

E fica uma pergunta, caro cidadão juizforano: quem se importa com isso?

Ana Cláudia de Jesus Barreto
Assistente Social
Fonte: www.tribunademinas.com.br - 12/11/2008

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Belíssimo artigo que retrata muito bem a dinâmica de ocupação do espaço urbano, especialmente na cidade de Juiz de Fora, o que desencadeia vários impactos sócio-ambientais.

Com a escassez de políticas públicas de um governo extremamente liberal, é um grande problema, principalmente nas cidades médias e grandes.

Por fim, repito o que sempre digo: "Quando a terra era livre o trabalho era escravo, quando o trabalho ficou livre a terra virou escrava."

Luciano Costa